“Mas por mim cavava daqui para fora mas para 1998, não para 2012.”

Boas! Bom ano novo para todos! Este foi um ano engraçado. Muita coisa aconteceu e muita coisa “desaconteceu”. Parece que normalmente é assim que acontece todos os anos (mas como é um balanço convém sempre dizer que este ano foi completamente diferente e especial. Nem que seja por motivos comerciais e para vocês gostarem mais. Tá bom? Tá!).

Para falar a verdade este ano não foi lá muito bom. Não só para mim como para quase toda a humanidade. Só aconteceu “trampa”. Por isso vamos mas é a cavar daqui para fora. Mas por mim cavava daqui para fora mas para 1998, não para 2012. É que as coisas vão ficar um nadinha mais caras, e sobretudo aquilo que eu ganhava nos meus espectáculos (que me permitiu comprar uma moradia com piscina na Damaia e duas latas de salsichas com recheio de azeitona) vai diminuir substancialmente devido ao aumento do IVA nos espectáculos. Porque parece que a maioria dos artistas estava a viver muito acima do resto da população. Até já compravam um chocolate com cereais para passar a noite em frente à televisão uma vez por mês. Malvados! “Uns com tanto e outros com tão pouco!”.

Mas falando de coisas boas, o ano 2012 traz boas prendas. Projectos novos. Estarei novamente no malaposta, com o Eduardo Ramos com vários convidados ao longo do ano. Estarei muito brevemente por essa internet fora (depois conto mais). Voltarei ao Teatro muito proximamente (sem ser stand-up comedy). Estarei por aí com um projecto bastante ambicioso (esperemos que dê frutos mas mais para o fim do ano). Estarei aqui pela minha casa a mascar pastilha elástica. E estarei por vezes no café do senhor Victor a beber um bagaço.

 

Por isso, um bom ano a toda esta gente! Um bom ano! Um espectacular ano. Porque este vai ser bem diferente de 2011!

2011 “Adio, Adieu! (como canta um vizinho meu) Há vidas in goodbye! Amor é amour! By the livers of my life!”

Este Natal: “usem roupões de seda em pelota e sintam a “beleza” da vida (…)”

Em todos os natais há sempre algo que não está bem. Ou falta a pessoa que já não está entre nós, ou falta o dinheiro para uma lembrança para as crianças, ou falta o dinheiro para ter comida na mesa, ou falta a pessoa que amamos ao nosso lado, ou falta a alegria dos mais velhos que se sentem sozinhos, ou falta o computador que tanto queríamos, a tarte de natas, o roupão de seda, a cigarreira de marfim, o anel vibratório, o croissant com ovo…

Em todos os natais, em todas as pessoas, falta algo. Graças a Deus. Pois não sei o que seria do ser humano de tudo estivesse sempre perfeitinho. É preciso é saborear o momento. Quer sejamos crianças e os nossos olhos brilhem com a chegada da hora de abrir as prendas, quer sejamos adultos e as nossas mentes se iluminem naquele acto de participação familiar na confecção do jantar. É giro reparar que nessa altura os seres humanos entram inconscientemente na sua melhor capacidade: a da cooperação. E  não a da competição, como nos ensinam desde pequenos.

Por isso saboreiem da melhor maneira o pouco que tiverem e celebrem a vida dos que já não estão connosco.

“Cada vez se gasta mais em bacalhau e em perú. E ainda dizem que estamos em crise e não há dinheiro!” Quantas vezes eu não ouvi esta frase durante este mês. Meus amigos! Há que comer enquanto se pode!!! Porque para o ano se calhar nem para um passarinho há dinheiro.

Sejam felizes, sejam amigos, usem roupões de seda em pelota e sintam a “beleza” da vida… E não se esqueçam! Se forem roubar um banco, sejam presidentes da câmara primeiro.

Um bom Natal a todos! :)

Esqueçam a compra da EDP, “Algés Judo” é a resposta

Durante o dia de hoje parece que se passaram umas coisas. E até parece que uns chineses compraram a parte da EDP que pertencia ao estado. Mas “no pasa nada”. Vamos esperar pelo telejornal para vermos as pessoas assustadas e depois calmamente, passarem para um inicio de noite ao ritmo da burrice da Cátia da Casa dos Segredos.

Mas vamos deixar-nos de coisas que não interessam a ninguém. Afinal, o que é que isso da EDP interessa? É só uma empresa que nos permite manter os pés quentinhos e não andar à luz das velas! Assim como assim também compro as velas no chinês!

Hoje tive o prazer de tomar um pequeno almoço requintado numa esplanada à-beira-jardim. Enquanto degustava um magnífico leite com chocolate reserva de 2003 e um croissant vitesse famigerable vermont plennant (não me perguntem o que é isto) esperando pela entrevista de emprego (as entrevistas de emprego que eu faço são sempre assim. E peço sempre para virem com decote.) reparei em dois rapazes de tenra idade que ali corriam em volta do café. “De repente apareceu o Bibi e levou-os a casa.” Não foi o caso, mas podia ter sido. DE REPENTE, reparei que traziam os dois um casaco de fato de treino com as palavras “Algés Judo” nas costas do mesmo. E de repente descobri uma nova forma de atravessar o bairro do Aleixo. É vestir um daqueles casacos e ver aquelas letras actuarem como repelente contra assaltantes. Ou não. Porque pode aparecer o Bibi e insistir em levar-me a casa.

 

Informação ás “Pazadas”

Nesta época em que somos atacados por informação por todos os lados e em todos os poros é difícil manter a sanidade mental.

Decidi abandonar por uns tempos a vida Facebookiana a não ser para assuntos profissionais inadiáveis. E vou-me envolver numa relação íntima e intensa, cheia de tesão com o eBuddy. O eBuddy é extremamente útil. Podemos saber o que nos interessa e podemos estar em contacto com todos os nossos amigos. E isso chega-me.

De certa forma o vaticano tem razão quanto à internet ser um pecado. Ela invade-nos de tal maneira a casa, a vida, dá-nos de tal maneira informação ás “pazadas” que nos deixamos enrolar nisso. É bom perceber que uma pessoa como eu, com a minha idade já “comeu” mais informação em vinte anos de vida que o próprio Einstein em 76 anos da sua. E isso é mau? É. Porque o Einstein “bebia” boa informação. Nós bebemos tudo. Boa, má, assim-assim, etc. Não existe um filtro, por mais RSS e Feeds que possam existir.

Assim abandono os “cãezinhos” maltratados de cinco em cinco minutos, as “calinadas” na língua materna, os “wanna be’s” adolescentes, etc etc. Volta e meia por lá andarei a divulgar o que faço.

E não é que desde que fechei o Facebook e afins, a minha cabeça parece estar a trabalhar normalmente e não como se fosse um motor de Fórmula 1?

Prefiro um Bombista Suicida a Gente com Música aos Berros nos Transportes Públicos

Enquanto a Teresa Guilherme faz mais um programa inteiro a falar por trocadilhos, eu venho apoquentar-me um pouco (mas só mesmo um bocadinho) aqui no meu blogue em forma de desabafo esporádico.

Eu ando a ficar extremamente violento intrinsecamente. Ando cheio de violência psíquica. E o problema não é unicamente esse. O problema é que o faço com um valente sorriso nos lábios como se fosse um porco a ter um orgasmo (e sim os porcos têm orgasmos de 30 minutos).

É difícil para já, uma pessoa acordar com um bruta enxaqueca (Sim. Enxaqueca. Se fossem as últimas duas sílabas apenas, acho que não seria uma coisa lá muito difícil de “aturar” logo pela manhã.) que nos impede de sair da cama. Pois se se apanha com uma luz, parece que se enfia um dedo do Onyewu pelo cérebro a dentro. É difícil ter de sair de casa e estar a chover. É difícil ter o carro na oficina. É difícil perceber que algumas pessoas ainda têm os seus empregos e outros não. Mas! É AINDA mais difícil, o supra-sumo do difícil, quando se entra calmamente numa carruagem do Metropolitano de Lisboa e temos um rapaz ao nosso lado, com phones nos ouvidos, a ouvir música tão alto que mais parece o riso da Helena Sacadura Cabral ou um dia de festa africana no Mercado da Ribeira.

Existem pessoas que ouvem música em transportes públicos em altos berros mas sem phones. Isso por si só já é estúpido e tenho as minhas dúvidas quanto à sua legalidade se eu estivesse no parlamento. Agora, usar phones e ouvir a música naquele volume é o cúmulo da estupidez. Não só eu tenho de levar com a música do indivíduo, como ele rebenta com os próprios tímpanos.

E digo-vos uma coisa: Ele a ouvir música daquela maneira não vai rebentar os tímpanos. Vai abrir um buraco negro que vai engolir o país inteiro incluindo os concorrentes do peso pesado!

E mais! Nós não sabemos como reagir. Não fazemos a mínima ideia do que fazer. Ele já tem phones!

E, voltando à minha temática do meu quotidiano cheio de emoções, vi um outro rapaz, sentado a meu lado que parecia desconfortável com aquilo. Não era só eu! Agora começa o meu problema: calmamente, com o telemóvel na mão, enquanto verificava o email (e não vale a pena pensarem em assaltar-me porque não tenho um Iphone nem nada que se pareça.), o meu olhar passeou pela carruagem imaginando calmamente que entrava na próxima estação, com uma carabina apontada ao sujeito e lhe dava um tiro na fronha ao som dos Bee Gees. Como se não chegasse, acrescentava uma granada de desfragmentação juntinha ao mp3.

Dei por mim com um sorriso rasgado a mostrar os dentes e a abanar a cabeça afirmativamente enquanto olhava para o nada.

A minha vida é simples. Tal como as de muitos portugueses. Mas já que nos tiram tudo. Porque não tirar o “direito” a ouvir música em altos berros em locais públicos? É que chega a ser preferível um bombista suicida. Porque um bombista faz o barulho todo logo de uma vez. Agora… Esta gente?

Depois do telejornal, para o português “No Pasa Nada”

Tem sido uma semana em cheio. E hoje ainda só é segunda-feira. Estou a brincar, não aconteceu nada de especial.
Ao que parece também nada de especial se passa neste país. Aumentar as taxas moderadoras, portagens electrónicas, síndrome anti-greve, julgamentos sobre desaparecimentos de crianças (que não deveria ser desaparecimento, mas esquecimento. Pelo menos para as autoridades.), etc.

Assim que começa o telejornal o português pragueja, pragueja, pragueja! Com aquele seu sentido de estado, qual revolucionário de Abril de 1974, e com a xenofobia característica “daqueles bandidos que vêm para cá tirar os empregos aos verdadeiros portugueses!”. A junção destas duas características do português durante a emissão do telejornal é por si só, um paradoxo do género de uma vida política inteira de um Freitas do Amaral.

Mas, passado o telejornal, tudo volta ao normal e nada se passa no “reino da Dinamarca”.

Debruço-me só sobre uma coisa (e não é sobre o parapeito da janela, que já vi muita gente cair assim):

Urgências dos hospitais a 20€. No mínimo. Porque sabe-se lá em quanto fica a coisa depois de uns quantos exames. Só queria dizer ao senhor primeiro-ministro e a todos os seus respeitosos (e que não usufruem do SNS ou então serão isentos! É isso!) que um livro-de-cheques não fica nada barato nos tempos que correm. E acho um profundo ataque à sociedade aumentar as taxas moderadoras desta maneira e não baixar o preço dos livros-de-cheques! Acho mal! E deixo aqui a minha revolta. Mas não muita porque ainda não é hora do telejornal.

Mais uma coisa. “Ah, mas o número de isentos aumentou!” Meus caros, se um dia eu ficar doente por causa de uma lata de cogumelos também me dirão “mas olha que o números de latas de cogumelos sem bactérias nocivas aumentou!” ainda bem meus senhores. Serei uma pessoa muito mais feliz. Mas então que se diga que queremos matar o resto dos portugueses que não estão isentos! Se for assim eu antecipo-me! Até já afiei uma faca ontem à noite.
Havia um senhor que dizia “estou-me cag*ndo para o segredo de justiça.” Eu digo: “Estou-me cag*ndo para o número de isentos.” Pusessem toda a gente a pagar. Mas toda a gente a pagar 1€. Éramos todos muito mais felizes.

Agora vou ali para o sofá afiar a faca porque não tarda começa o telejornal e eu tenho de mostrar as veias do meu pescoço revolucionário. Para depois quando alguém for para a rua manifestar que está contra algo eu dizer: “Que vergonha. No estado em que o país está e esta gente a fazer greve.”

UE – 2011

Sketch Talk-Show Humoral – RESTART 2010/2011 (minha autoria)

CENA 1 – INT. ESTÚDIO – FUNDO PRETO – DIA

Miguel está sentado ao computador, contente e feliz a mexer no facebook. Entra o narrador.

NARRADOR

Este rapaz está apaixonado. Neste momento recebe um convite no facebook.

Miguel abre o convite e lê para si mesmo. Narrador lê o que está escrito no convite.

NARRADOR (CONT’D)

“Queres casar comigo? criado por Margarida Fernanda” Miguel está agora indeciso…

Miguel anda com o indicador do rato entre o “vou participar”, “Talvez” e “Não vou participar”. Miguel sorri e carrega no “Sim, vou participar”. Narrador usa a lingua da sogra que tira do bolso.

CENA 2 – INT. ESTÚDIO – FUNDO PRETO – DIA

Miguel entra vestido com um fato de gala e senta-se de novo á secretária, ao computador e a fazer refresh no facebook. Recebe uma notificação do grupo “Casamento de Miguel e Margarida” a avisar o inicio de cerimónia. Miguel vai teclando.

NARRADOR (CONT’D)

Miguel chega ao chat e encontra os padrinhos. Padre Vítor está agora on-line e dá a indicação a miguel para começar a fazer refresh porque margarida está atrasada.

Miguel começa a fazer refresh.

NARRADOR (CONT’D)

Margarida acaba de ficar on-line com uma foto toda branca. E no chat comenta-se o lindo véu.

Miguel está no chat e o padre vitor diz para pararem de teclar.

NARRADOR (CONT’D)

A cerimónia decorre calmamente sem incidentes até a altura em que padre vitor tecla no chat a seguinte frase “Se alguém souber de alguma coisa que impeça este matrimónio, que tecle agora ou fique off-line para sempre.”

Enquanto miguel vê o que o padre vitor escreveu no chat, repara que surge uma nova notificação: “Margarida Fernanda bloqueou o mural”.

NARRADOR (CONT’D)

Tudo acabou por acontecer com naturalidade. Miguel e Margarida oficializaram a sua realação no mural. Os padrinhos fizeram as suas notificações no copo de água e houve troca de vacas, milho, tábuas e pregos para as quintas.

Miguel levanta-se baixa as calças, agarra no portátil e sai de cena levando-o nos braços.

NARRADOR (CONT’D)

E… agora… o Miguel vai para a noite de núpcias.

Narrador levanta uma placa que diz “like” e dá um sorriso maroto.

Sketch – Exercício

CENA 1  – CONSULTÓRIO MÉDICO – DIA

 

Carolin está sentada no consultório do cirurgião plástico enquanto come um chupa-chupa e enrola o cabelo. Saia Curta, body painting da cintura para cima feito com chantilly. O cirurgião plástico levanta-se.

 

Cirurgião

Então deixe cá ver… quer aumentar o peito?

Cirurgião tenta medir o peito com as palmas das mãos, mas não consegue, visto que elas são demasiado grandes.

 

Carolin

Queria, mas não com silicone…

 

O cirurgião olha para os dedos e apercebe-se que estão sujos por causa do body painting.

 

Carolin

Ah doutor, pode comer à vontade que é chantily!

 

Cirurgião leva o dedo à boca e degusta o chantily. De seguida senta-se.

 

Cirurgião

Ah, é do magro!

 

Carolin

Sim, não quero que ninguém engorde por minha causa. Porque além de ser actriz, também sou eu que trato do catering.

Mas oh doutor, eu em vez de silicone, queria leite!!!

 

Cirurgião

Ah, não me diga que pretende adoptar uma criança em breve!!!

 

Carolin

 NÃO! Isto é por motivos profissionais, porque não sei se o doutor sabe, mas eu estou a tentar bater o recorde de fazer sexo oral a 200 homens.

Já vou nos 75!

 

Cirurgião põe os óculos, pega numa caneta e num bloco.

Cirurgião

E de quantos ml de leite é que estava a pensar…?

 

Carolin

Eu já tenho 750 ml em silicone. O ideal seria 1 litro, 750 no seio esquerdo e 150 no direito, porque eu tenho um desvio na coluna.

 

Cirurgião

Então e tem preferência pela marca ou animal?

 

Carolin

Não, desde que seja mamífero, para mim está bom.

Cirurgião

Mas quer coalhado, magro, meio gordo ou gordo…?

 

Carolin

Olhe, pode ser magro… E quero o modelo TDI.

 

Cirurgião

Então, magro, modelo turbo diesel de injecção. Com certeza. Marcamos para amanhã, está bom?

 

Carolin levanta-se e caminha para a porta.

 

Carolin

Por mim  está perfeito! Já estou habituada a estar deitada todos os dias mesmo…

 

Carolin sai e o cirurgião agarra no telefone e liga para o anestesista.

 

Cirurgião

Estou Dr. João? Olhe, amanhã para a cirurgia de implante mamário vou precisar de:

um pack de 6 litros da Mimosa e um fardo de palha se faz favor.

A Vida Numa Excepção – Curta-Metragem (excerto – minha autoria)

CENA 1 – INT. SALA – DIA

Filipe está sentado no sofá com o pai em frente á televisão. Há uma caixa de ferramentas no chão da sala e uma mesa de centro entre o sofá e a televisão. 

Pai

Filipe, tu namoras e não dizias nada ao teu pai?

Pai vai á caixa das ferramentas e começa á procura da chave de fendas. 

Filipe

Desculpa. Era uma coisa só nossa. Vê lá se não está por baixo do martelo…

Olha para a caixa das ferramentas e agarra-a pondo-a em cima da mesa para os dois procurarem a chave de fendas.

Filipe (Cont.)

E como só começamos há uns meses.

Os dois começam á procura tirando as ferramentas de dentro da caixa.

Pai

Cuidado com a rapariga… Não quero javardices…

Pai agarra de novo a caixa.

Pai (Cont.)

Ainda é nova, depois ainda há problemas com os pais e assim…

Pai vira a caixa das ferramentas ao contrário e despeja tudo na mesa de centro.

Pai (Cont.)

 Diabos me levem se não encontro esta chave.

Filipe olha para o lado comprometendo-se.

Pai (Cont.)

Meu deus… UNS MESES! E já andaram na javardice!

 

 

Filipe

Calma pai.

Filipe ri-se e encontra a chave de fendas. Fica com ela na mão.

Pai

Calma? Avô… Tão cedo…

Pai continua á procura da chave no meio das ferramentas espalhadas.

Pai (Cont.)

Deixa só a tua mãe saber disto…

Pai continua á procura. 

Filipe

Ainda não vais ser avô.

Dá-lhe a chave de fendas e pai agarra-a.

Filipe (Cont.)

E a chave está aqui.

Pai deixa cair a respiração, limpa o suor com um lenço que tira do bolso, e ri. Vai em direcção ao armário da sala.

 

Pai

E eu á procura da chave. Deixa-me mas é tratar das portas deste armário senão, nunca mais é sábado…

Filipe vai á cozinha.

INSERT – COZINHA – DIA

Filipe está ao balcão a fazer uma sandes num prato. Vira-se para a sala com o prato na mão. Filipe ouve o barulho do armário cheio de loiça a cair em cima do pai, que acumula com o barulho do prato de Filipe a cair no chão da cozinha.

CENA 2 – INT. QUARTO – MANHÃ

Filipe acorda na cama um pouco perturbado do sonho, mas faz pouco barulho para não acordar Leonor. Beija-a e ela continua a dormir. Filipe levanta-se.

CENA 3 – INT. CASA DE BANHO – MANHÃ

Filipe olha para o puxador da porta de vidro do armário da casa de banho, abre-o e tira a escova dos dentes e o copo com cuidado.

 

CENA 4 – EXT. ESPLANADA DE CAFÉ – MANHÃ

Filipe está sentado á mesa da esplanada com Leonor a beber um café. Existe pouco movimento na rua com algumas pessoas a passar calmamente. A esplanada tem alguns clientes mas não está cheia.

Filipe

Nem acredito que isto vai acabar. Finalmente sou o homem que sempre mereceste.

Filipe agarra a mão a Leonor.

Leonor

O homem que mereço? Não digas parvoíces, sempre o foste amor.

Filipe

E tu…

Filipe beija a mão a Leonor e faz-lhe festas na cara.

Finalmente! Finalmente, eu sou capaz de ir a uma loja de roupa contigo sem ter medo…

Leonor

E o puxador do armário? Conseguiste hoje?

Filipe

Sim. Custou-me imenso, mas consegui!

Leonor

Eu andava tão preocupada contigo… Era aflitivo ver-te viver daquela maneira.

Um empregado vai levantando as coisas das mesas ali perto e volta para dentro.

Filipe

Eu sei… Desculpa, mas… Imagina…

CENA 5 – INT. CASA DE BANHO – MANHÃ

Filipe hesita imenso em abrir a porta do armário de vidro da casa de banho e quando o abre fá-lo a tremer e segurando a porta de vidro, cheio de medo que a porta caia. Quando fecha a porta do armário, Leonor olha-o prestes a chorar.

Filipe (Voz off)

Todos os dias aquilo… pensar que a qualquer momento aquela porta podia cair, com o vidro a estilhaçar-se no lavatório, a saltar para cima de mim. Um estilhaço na cabeça! Num olho!

CENA 6 – EXT. ESPLANADA DE CAFÉ – MANHÃ

Filipe (continuando a Voz off)

Ou numa têmpora… Sei lá…

Leonor agarra a mão de Filipe.

Leonor

Pensa que tudo isso já passou querido. Temos toda a nossa vida pela frente. Mais que tudo, agora sabemos que vamos ficar bem!

O empregado vem á esplanada e deixa cair o que tem no tabuleiro ao chão. Filipe faz uma pausa pois ouviu o barulho do vidro a partir.

 

CENA7 – EXT. RUA – DIA

Filipe e Leonor caminham um pouco no passeio de mão dada e param.

Filipe

Tens a certeza?

Filipe puxa a mão de Leonor pela palma com os dedos.

Leonor

Tenho de tratar de uma coisinha…

Leonor toca no peito de Filipe e afasta-se um pouco rindo enquanto morde o lábio.

Filipe

Posso saber o que é? É algo bom?

Leonor agarra-se aos colarinhos de Filipe e encosta-se a ele.

Leonor

Algo que se for verdade vais querer e muito!

Filipe afasta um pouco a cabeça quando reage. Evitando que Leonor o beije e que o largue.

Filipe

Wow, espera! Não me digas que…

Filipe é interrompido pelo beijo de Leonor, que começa a andar no outro sentido da rua fazendo adeus a Filipe. Filipe sorri parado no passeio.

CENA 8 – INT. SALA DA CASA DO PSICÓLOGO – DIA

Em Flashback, Filipe está sentado no sofá enquanto é ouvido pelo psicólogo sentado á sua frente numa poltrona. Á sua volta existem imensos livros e um pousado sobre uma secretária que diz: Código de Ética. Filipe tem as mãos a tremer e a cara com algum suor. 

Filipe

Eu… eu… Não consigo. Por muito que a minha mulher me ame sei que ela também já não aguenta. E aquele acidente… Foi o ponto final.

Psicólogo

Filipe. O Filipe sabe e pelo que posso depreender que sofrerá de um grave transtorno de pânico. Um transtorno que…

 

Filipe interrompe.

Filipe

Medo de a qualquer momento…

O psicólogo prepara um café e entrega a chávena a Filipe que assustado a deixa cair no chão. Psicólogo suspira aborrecido.

Psicólogo

Já percebi que a sua relação com vidro, porcelana… não é das melhores.

Filipe limpa o suor do rosto, fixando a chávena no chão.

Filipe

Desculpe-me. Desculpe. Não era minha intenção.

Filipe deixa de tremer e respira fundo encostando-se ao sofá.

Filipe

Se fosse só o problema do vidro… A Leonor queria ir a uma biblioteca há uns dias. Andar numa biblioteca? Tudo aquilo cair-me em cima… Partir-me a espinha ao meio! Não quero pensar sequer!

Psicólogo aproxima-se da janela ficando de costas para Filipe.

Psicólogo

A causa… estará no seu passado com certeza…

CENA 9 – INT. SALA DA CASA DO PSICÓLOGO – DIA

O Psicólogo e Filipe estão sentados tal como na cena 7, mas com roupas diferentes indicando o tempo real. O Psicólogo está a beber whisky. 

Psicólogo

O caro Filipe é um caso de sucesso. Percebe que nada tem a ver com a morte do seu pai?

Filipe olha uma vez para o lado e encosta-se ao sofá. Volta a olhar para o lado e encara o psicólogo abanando a cabeça em sinal positivo.

Psicólogo

Nada podia fazer. Um armário é apenas um armário, um prato apenas um prato que caiu da sua mão. Estou muito contente. Não só pelo meu excelente trabalho, como pela excelente evolução que me demonstrou.

 

Filipe

Mas também sei o que as pessoas á minha volta sofreram.

Psicólogo

A sua mulher. A Leonor.

Filipe

Exactamente.

CENA 10 – INT. CASA DE FILIPE/LEONOR – DIA

Leonor chega a casa, pousa o saco na sala e aproxima-se da janela.

Filipe (voz off)

Mas finalmente sinto-me iluminado! Finalmente tenho uma vida. Posso voltar para a loja, posso fazer tudo.

Leonor respira fundo sorridente.

Filipe (Cont/ voz off)

Devo-lhe a minha felicidade.

Leonor vai até ao saco e tira um teste de gravidez. Fixa-o sorrindo.   

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