CENA 1 – INT. SALA – DIA
Filipe está sentado no sofá com o pai em frente á televisão. Há uma caixa de ferramentas no chão da sala e uma mesa de centro entre o sofá e a televisão.
Pai
Filipe, tu namoras e não dizias nada ao teu pai?
Pai vai á caixa das ferramentas e começa á procura da chave de fendas.
Filipe
Desculpa. Era uma coisa só nossa. Vê lá se não está por baixo do martelo…
Olha para a caixa das ferramentas e agarra-a pondo-a em cima da mesa para os dois procurarem a chave de fendas.
Filipe (Cont.)
E como só começamos há uns meses.
Os dois começam á procura tirando as ferramentas de dentro da caixa.
Pai
Cuidado com a rapariga… Não quero javardices…
Pai agarra de novo a caixa.
Pai (Cont.)
Ainda é nova, depois ainda há problemas com os pais e assim…
Pai vira a caixa das ferramentas ao contrário e despeja tudo na mesa de centro.
Pai (Cont.)
Diabos me levem se não encontro esta chave.
Filipe olha para o lado comprometendo-se.
Pai (Cont.)
Meu deus… UNS MESES! E já andaram na javardice!
Filipe
Calma pai.
Filipe ri-se e encontra a chave de fendas. Fica com ela na mão.
Pai
Calma? Avô… Tão cedo…
Pai continua á procura da chave no meio das ferramentas espalhadas.
Pai (Cont.)
Deixa só a tua mãe saber disto…
Pai continua á procura.
Filipe
Ainda não vais ser avô.
Dá-lhe a chave de fendas e pai agarra-a.
Filipe (Cont.)
E a chave está aqui.
Pai deixa cair a respiração, limpa o suor com um lenço que tira do bolso, e ri. Vai em direcção ao armário da sala.
Pai
E eu á procura da chave. Deixa-me mas é tratar das portas deste armário senão, nunca mais é sábado…
Filipe vai á cozinha.
INSERT – COZINHA – DIA
Filipe está ao balcão a fazer uma sandes num prato. Vira-se para a sala com o prato na mão. Filipe ouve o barulho do armário cheio de loiça a cair em cima do pai, que acumula com o barulho do prato de Filipe a cair no chão da cozinha.
CENA 2 – INT. QUARTO – MANHÃ
Filipe acorda na cama um pouco perturbado do sonho, mas faz pouco barulho para não acordar Leonor. Beija-a e ela continua a dormir. Filipe levanta-se.
CENA 3 – INT. CASA DE BANHO – MANHÃ
Filipe olha para o puxador da porta de vidro do armário da casa de banho, abre-o e tira a escova dos dentes e o copo com cuidado.
CENA 4 – EXT. ESPLANADA DE CAFÉ – MANHÃ
Filipe está sentado á mesa da esplanada com Leonor a beber um café. Existe pouco movimento na rua com algumas pessoas a passar calmamente. A esplanada tem alguns clientes mas não está cheia.
Filipe
Nem acredito que isto vai acabar. Finalmente sou o homem que sempre mereceste.
Filipe agarra a mão a Leonor.
Leonor
O homem que mereço? Não digas parvoíces, sempre o foste amor.
Filipe
E tu…
Filipe beija a mão a Leonor e faz-lhe festas na cara.
Finalmente! Finalmente, eu sou capaz de ir a uma loja de roupa contigo sem ter medo…
Leonor
E o puxador do armário? Conseguiste hoje?
Filipe
Sim. Custou-me imenso, mas consegui!
Leonor
Eu andava tão preocupada contigo… Era aflitivo ver-te viver daquela maneira.
Um empregado vai levantando as coisas das mesas ali perto e volta para dentro.
Filipe
Eu sei… Desculpa, mas… Imagina…
CENA 5 – INT. CASA DE BANHO – MANHÃ
Filipe hesita imenso em abrir a porta do armário de vidro da casa de banho e quando o abre fá-lo a tremer e segurando a porta de vidro, cheio de medo que a porta caia. Quando fecha a porta do armário, Leonor olha-o prestes a chorar.
Filipe (Voz off)
Todos os dias aquilo… pensar que a qualquer momento aquela porta podia cair, com o vidro a estilhaçar-se no lavatório, a saltar para cima de mim. Um estilhaço na cabeça! Num olho!
CENA 6 – EXT. ESPLANADA DE CAFÉ – MANHÃ
Filipe (continuando a Voz off)
Ou numa têmpora… Sei lá…
Leonor agarra a mão de Filipe.
Leonor
Pensa que tudo isso já passou querido. Temos toda a nossa vida pela frente. Mais que tudo, agora sabemos que vamos ficar bem!
O empregado vem á esplanada e deixa cair o que tem no tabuleiro ao chão. Filipe faz uma pausa pois ouviu o barulho do vidro a partir.
CENA7 – EXT. RUA – DIA
Filipe e Leonor caminham um pouco no passeio de mão dada e param.
Filipe
Tens a certeza?
Filipe puxa a mão de Leonor pela palma com os dedos.
Leonor
Tenho de tratar de uma coisinha…
Leonor toca no peito de Filipe e afasta-se um pouco rindo enquanto morde o lábio.
Filipe
Posso saber o que é? É algo bom?
Leonor agarra-se aos colarinhos de Filipe e encosta-se a ele.
Leonor
Algo que se for verdade vais querer e muito!
Filipe afasta um pouco a cabeça quando reage. Evitando que Leonor o beije e que o largue.
Filipe
Wow, espera! Não me digas que…
Filipe é interrompido pelo beijo de Leonor, que começa a andar no outro sentido da rua fazendo adeus a Filipe. Filipe sorri parado no passeio.
CENA 8 – INT. SALA DA CASA DO PSICÓLOGO – DIA
Em Flashback, Filipe está sentado no sofá enquanto é ouvido pelo psicólogo sentado á sua frente numa poltrona. Á sua volta existem imensos livros e um pousado sobre uma secretária que diz: “Código de Ética”. Filipe tem as mãos a tremer e a cara com algum suor.
Filipe
Eu… eu… Não consigo. Por muito que a minha mulher me ame sei que ela também já não aguenta. E aquele acidente… Foi o ponto final.
Psicólogo
Filipe. O Filipe sabe e pelo que posso depreender que sofrerá de um grave transtorno de pânico. Um transtorno que…
Filipe interrompe.
Filipe
Medo de a qualquer momento…
O psicólogo prepara um café e entrega a chávena a Filipe que assustado a deixa cair no chão. Psicólogo suspira aborrecido.
Psicólogo
Já percebi que a sua relação com vidro, porcelana… não é das melhores.
Filipe limpa o suor do rosto, fixando a chávena no chão.
Filipe
Desculpe-me. Desculpe. Não era minha intenção.
Filipe deixa de tremer e respira fundo encostando-se ao sofá.
Filipe
Se fosse só o problema do vidro… A Leonor queria ir a uma biblioteca há uns dias. Andar numa biblioteca? Tudo aquilo cair-me em cima… Partir-me a espinha ao meio! Não quero pensar sequer!
Psicólogo aproxima-se da janela ficando de costas para Filipe.
Psicólogo
A causa… estará no seu passado com certeza…
CENA 9 – INT. SALA DA CASA DO PSICÓLOGO – DIA
O Psicólogo e Filipe estão sentados tal como na cena 7, mas com roupas diferentes indicando o tempo real. O Psicólogo está a beber whisky.
Psicólogo
O caro Filipe é um caso de sucesso. Percebe que nada tem a ver com a morte do seu pai?
Filipe olha uma vez para o lado e encosta-se ao sofá. Volta a olhar para o lado e encara o psicólogo abanando a cabeça em sinal positivo.
Psicólogo
Nada podia fazer. Um armário é apenas um armário, um prato apenas um prato que caiu da sua mão. Estou muito contente. Não só pelo meu excelente trabalho, como pela excelente evolução que me demonstrou.
Filipe
Mas também sei o que as pessoas á minha volta sofreram.
Psicólogo
A sua mulher. A Leonor.
Filipe
Exactamente.
CENA 10 – INT. CASA DE FILIPE/LEONOR – DIA
Leonor chega a casa, pousa o saco na sala e aproxima-se da janela.
Filipe (voz off)
Mas finalmente sinto-me iluminado! Finalmente tenho uma vida. Posso voltar para a loja, posso fazer tudo.
Leonor respira fundo sorridente.
Filipe (Cont/ voz off)
Devo-lhe a minha felicidade.
Leonor vai até ao saco e tira um teste de gravidez. Fixa-o sorrindo.